Sobre a minha depressão

Foto por Artem Beliaikin em Pexels.com

Em 2018, eu fiz uma pequena confusão com os meus períodos de férias, o que acabou gerando 3 férias no mesmo ano: em abril, em setembro e em dezembro.

Eu coordenava um trabalho de saúde mental aqui no meu trabalho, e por isso, no mês de setembro, sempre costumava ir a vários eventos e palestras a respeito do setembro amarelo. E fui para um evento dois dias antes de sair de férias, uma palestra sobre síndrome de burnout.

Lembro que, durante a leitura dos slides, me surpreendi um pouco quando chegou nos sinais e sintomas, pois parecia que eu tinha todos. Até fiz piada sobre isso, dizendo que eu não sabia se o que tinha era depressão ou burnout.

Rimos muito, mas já não tinha graça.

No dia seguinte fui para Lima, no Peru, realizar um sonho antigo: comer todas as comidas incríveis sobre as quais havia lido tantas vezes. Me hospedei no bairro de Miraflores, numa rua que dava acesso direto à Huaca Pucllana, um lugar que eu queria muito visitar. Todos os dias, eu a via quando ia sair para os passeios, e quando voltava para o hostel.

Só que eu caminhava a esmo, e não encontrava beleza em canto nenhum. Lima é belíssima: não como outras capitais da América do Sul, linda como ela mesmo. As comidas são mesmo vibrantes e fresquíssimas. Existem confortos de qualquer capital do mundo, e muitas peculiaridades. 

Nada disso me deixava satisfeita, e eu continuava caminhando a esmo, procurando onde ir para encontrar essa satisfação que não sentia.

Voltei para casa ensimesmada. Talvez eu não tenha entendido Lima direito, pensei. Estava cansada, meio desconectada de tudo, mas seguia fazendo tudo: trabalhando, indo à academia, estudando (estava fazendo uma pós-graduação), namorando. 

Mas retornando ao trabalho, muito tempo depois, chego no e-mail de acesso ao certificado daquela palestra do setembro amarelo. Eles haviam incluído os slides da apresentação, e eu resolvi dar uma passada de olhos novamente.

Fiquei um pouco elétrica, dando vários googles diferentes com o mesmo tema. Eu tinha muitos dos sintomas, muitos mesmo, de uma pessoa depressiva – e todos daqueles que sofrem síndrome de burnout.

Fisicamente, eu estava um caco já havia alguns meses, e não associava ao estresse. Por já estar tratando com alimentação e suplementação os meus problemas gastrointestinais, dei um caso de bandeja para a primeira psiquiatra que procurei.

Ela foi muito educada e acolhedora, e me disse que como eu mesma já havia poupado o trabalho dela (enquanto tentava de tudo para voltar a me sentir bem), só nos restava experimentar a medicação. Ela receitou exatamente aquele que eu “queria”, após pesquisar muito sobre quais os que não afetavam a libido, e quais a pessoa podia continuar bebendo.

Pausa para você terminar de me julgar. Hoje eu sei que isso era o de menos, mas na época não.

Na época eu só queria alguma coisa que me permitisse continuar exatamente com a mesma vida que já estava tendo, vivendo uma coisa meio dupla. Odiando um lado dela, amando o outro e tentando ver quem ganhava mais.

Eu achava que se eu tivesse muito bem desenvolvido o lado bom da minha vida, isso seria o suficiente para me permitir aguentar o lado ruim dela. Eu também queria (não de uma forma muito consciente) estar em depressão sem incomodar ninguém, sem mudar nada no meu rendimento intelectual e produtivo, sem deixar de ser uma boa namorada e amiga.

Eu juro que eu achava que ia resolver o meu problema de depressão com um pouco de descanso, medicação e melhorando a parte da minha vida que já era boa, sem futucar na parte que eu não gostava.

A pausa de agora é para mim mesma parar de rir.

Eu troquei de psiquiatra e de psicoterapeuta, uns meses depois. Nada de exatamente errado com as primeiras profissionais, era só um ciclo que eu precisava fechar. Eu troquei de medicamento também, uns meses depois.

Eu fiquei mais ou menos dois meses afastada do trabalho, para poder me dedicar integralmente ao tratamento – a adaptação ao remédio foi uma das coisas mais difíceis que já passei na vida adulta. E comecei a retirar muitas coisas que estavam penduradas na minha vida, como casacos que a gente larga em cima de uma cadeira.

A primeira delas, foi o movimento sindical, que não fazia mais bem há muito tempo. Um pouco antes, me liberei de um projeto no meu trabalho, também. O problema talvez nem fosse o projeto, mas eu convivia com várias pessoas com quem eu tinha conflitos de personalidade.

A pós graduação que eu estava fazendo, também abandonei, sem dó, sem nem trancar. Não era aquilo que eu queria. Eu me vi sem estudar para coisa nenhuma (tipo um curso, ou projeto) pela primeira vez em muitos anos.

Os planos que eu tinha de encontrar um emprego parecido com o que eu já tinha, também larguei. E a minha vida social foi ficando menor, menorzinha. Eu fui me reservando mais, e ficando menos em situações incômodas.

Terminei uma amizade que eu nunca pensei que terminaria. Eu nem sabia que adultos fazem isso. Mas foi um minúsculo passo, um gesto de auto-respeito, um treino de colocar limites àquilo que poderia aceitar “de fora”.

E com o início da pandemia, me livrei de um monte de pequenas sociais que eu detestava, mas não conseguia escapar. 

Só que imediatamente antes, eu me propus a desagradar. E entrei em conflito, bati de frente com uma pessoa que não era exatamente ruim, mas também não era exatamente boa para mim. Não foi fácil, mas foi libertador.

Eu já vinha ensaiando algumas tentativas de me posicionar mais firmemente com pessoas que me exigiam muito mais do que seria possível para mim. Inclusive, eu vinha trabalhando em terapia alguns exercícios de treinar uma resposta justa, sincera, para situações que me aconteciam e eu não conseguia escapar.

Eram pequenas armadilhas sociais, a maioria delas concentrada no trabalho, considerando que é o que eu mais faço. Eu até cheguei a escrever um pouco aqui nesse post, mas tinha muito mais, por baixo dessa camada que eu revelei.

Haviam tensões e conflitos que aconteciam entre pessoas que literalmente se odiavam. Ninguém e todo mundo tinha razão ao mesmo tempo, e eu era constantemente chamar a tomar a defesa de um dos lados.

Uma situação em particular me destravou de assumir uma posição genuína, justa e sincera comigo. Foi um conflito que me rendeu a paz de poder ser quem eu sou, dentro de um ambiente onde eu já não sabia mais quem eu era. A paz que eu conquistei naquela guerra perdura até hoje.

Dali em diante, apesar da pandemia, eu comecei a melhorar a olhos vistos. É claro que eu já estava medicada há mais de um ano, fazendo psicoterapia há mais tempo ainda, mas o fato de ter ficado o ano inteiro em casa, restrita a tão poucas pessoas que conto nos dedos das mãos, se mostrou uma rotina antidepressiva para mim.

A ayurveda voltou para a minha vida mais ou menos em julho daquele ano, num congresso online do Instituto Naradeva Shala. Encontrei a minha terapeuta ayurveda palestrando sobre o diagnóstico através da língua, que eu achei impressionante, e começamos o processo de customizar a minha rotina.

Em agosto, encontrei o meu próprio curso de terapeuta ayurveda, num anúncio de instagram. As aulas iniciariam somente em outubro, mas eu já tinha um novo projeto, para o qual me dedicar. Comecei a brincar de praticar comigo mesma as rotinas ayurvédicas, uma coisa levou à outra, e fui parar no meu retiro de meditação em janeiro de 2021.

Foi ao longo de 2020 que desenhei esse formato de vida que agora estou levando: as manhãs são o meu tempo de estudo e de autocuidado (meditar, fazer atividade física, tomar sol, ler, escrever). As tardes durante a semana são na repartição, e eu todos os dias me esforço para ser mais útil de verdade, não só agradável. O ambiente é melhor, coincidência ou não. As noites são bem curtas: comer logo que chego em casa, assistir qualquer entretenimento que esteja me levando a atenção no momento, e me preparar para deitar cedo e dormir.

Os finais de semana são ocupados, muitos deles, com os meus cursos. Percebi que isso não só não me incomoda, como me faz feliz, realizada. Eu preciso disso para me sentir bem.

Os remédios já saíram todos há cerca de 2 meses. Meu psiquiatra, o querido e maravilhoso dr. João, me deu alta, me mandou embora :).

A retirada do antidepressivo foi um pouco complexa, eu sentia um efeito esquisitíssimo dentro da cabeça, como se houvesse muito ar dentro dela. Mas tirando isso, foi muito tranquilo e eu não percebo ainda que esteja fazendo falta. Sou totalmente aberta a tomar de novo, se eventualmente precisar – mas estou me esforçando em todas as outras frentes para que não precise.

Até hoje, eu ainda não sei “o que foi que aconteceu”, mas eu tenho uma pista, uma intuição forte, de que fui muito permissiva com muita gente, e isso quase me custou toda a minha vida. A minha dificuldade em ser desagradável, em dizer não e desapontar as outras pessoas, fez com que eu me colocasse em inúmeras situações desconfortáveis para mim.

Eu ainda preciso me lembrar, todos os dias, que o meu primeiro compromisso é comigo, e que ninguém vai morrer por ouvir um não meu. São muitos anos no automático, querendo ser leve, querendo ser legal, querendo ser uma pessoa que não pesa no dia dos outros.

Eu faço isso lendo, escrevendo, falando repetidamente sobre isso na psicoterapia, na esperança de que isso um dia se torne automático. Não tenho certeza de que isso vá acontecer, mas preciso criar essa musculatura mental.

Essa postagem também foi uma tarefinha de casa da minha terapeuta, mas eu ia acabar escrevendo, mais hora menos hora. Então, foi um prazer executar.

3 comentários em “Sobre a minha depressão

  1. Gostei muito de ouvir a sua experiência, não é uma coisa fácil de expor sim a depressão. Também tive os meus dias nebulosos, e o Cachorro Magro foi uma válvula de escape muito importante. Era a saída para quando eu queria gritar mesmo sem ter ninguém pra ouvir. Espero que esteja bem na medida do possível, um grande abraço!

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