A diferença que faz uma sangha

Se você não conhece essa palavra, já vou traduzir bem agora: existente tanto em páli quanto em sânscrito, quer dizer “associação, assembleia, comunidade”. São pessoas com objetivos em comum, não nos termos absolutos, mas sim na visão e propósito de vida.

Eu conheci essa palavra em janeiro, no meu retiro de meditação em silêncio. Vários dos meus colegas, que já eram iniciados na yoga, no budismo ou na teosofia (coisas que eu jamais estudei ou fiz ideia de como era) disseram que estavam ali para meditar “com a sangha”, que isso era muito benéfico para eles. Eu entendi o que queria dizer meio por alto, e logo entendi na prática.

Meditávamos 5 vezes ao dia, eventualmente mais, em blocos de mais ou menos 30 minutos. Desde a primeira tentativa, vi que estava difícil me posicionar, me concentrar, manter pelo menos o corpo quieto – nem vou citar a mente. E quando eu acabava abrindo meus olhos, desesperada, via ao meu redor os meus parceiros de retiro, olhos fechados, posição escolhida, meditando ou pelo menos tentando meditar. Isso era meu combustível sutil para fechar os olhos e tentar mais uma vez.

Peguei carona no esforço coletivo e individual daquelas pessoas, e isso meio que me salvou de querer desistir umas 2 vezes. Só depois é que eu fui saber a luta de tantos, para manter o corpo quieto, e a mente minimamente focada. De fora, eles me pareciam impávidos, perfeitos meditadores. Acredito que passei a mesma sensação para alguém que, ao abrir os olhos, me viu empenhada tentando meditar.

Meses se passaram, a vida vai nos engolindo sempre, acontecimentos, dilemas novos e antigos. Aí fiz outro retiro, no mesmo local, meditei novamente. Aí passaram mais algumas semanas, e cheguei no módulo final do meu curso de terapeuta ayurveda.

Não, ninguém meditou lá. Nem a yoga que íamos fazer juntas conseguimos, dada a chuva torrencial que inchou os gramados maravilhosos onde planejamos praticar.

No entanto lá se passou um outro tipo de processo, igualmente empoderador: no minuto em que nos olhamos nos olhos, deixamos as armaduras na porta e abrimos tudo o que veio à mente. Contamos com naturalidade quais eram os nossos medos, os nossos traumas, as nossas dores. Assim, como se fosse fácil virar para outra pessoa e revelar aquele machucado escondido e ainda meio pulsante de dor.

Sem nenhum combinado prévio, sem ninguém dizer que era seguro falar, alguém falou por primeiro (já nem sei mais quem foi) e se seguiram diversos “eu também” por todos os lados. A cada instante ordinário, como na fila do almoço, como na hora da aula. Perdi até as contas de quantos “aha moments” nós presenciamos uma das outras. As historias fluíram como um fluxo muito corriqueiro, como se fosse do nosso costume estar juntas e misturadas.

Como se fosse habitual e tão antigo quanto os nossos corpos, as camisetas saíam pelo pescoço e as mãos se voluntariavam para praticar as manobras que eram o nosso objetivo primário aprender.

Quando foi se aproximando o momento de acabar tudo, a emotividade aflorada, choramos de alegria e de gratidão por termos nos encontrado num ambiente tão seguro e reconfortante. E quando tudo terminou, e voltamos para casa, ficamos ainda com a sensação de que o laço continuava firmado.

Foi através dessa pequena experiência, que relembrei a força que há em coletivamente evoluir. Não que eu não tenha as minhas próprias questões, as minhas necessidades e urgências que ninguém pode fazer por mim. Mas se for possível compartilhar esse processo com mais gente que está travando a sua batalha, melhor para todas nós.

Isso foi também muito impactante para mim, depois de ter passado os últimos anos muito atrofiada nos meus relacionamentos interpessoais. Fiquei um longo tempo pensando que as pessoas eram todas uma grande ofensa ao meu temperamento introvertido, e odiando cada interação (ou quase isso). Até escrevi sobre isso nesse post (clique para ler). E hoje eu vejo que existem, sim, relacionamentos incríveis e benéficos para mim aí fora.

É uma questão de procurar no lugar certo, e abrir meu coração.

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