As coisas que só vejo se prestar atenção

Tem algumas semanas eu botei pra reparar mais em mim mesma. O que já não era pouco, haja visto que estou sempre de olho no que eu penso, sinto, manifesto.

Mas de alguma maneira muito auspiciosa entrei aí numa espiral da goodvibes, que sempre vale aproveitar quando vem. Sabe como é: brasileira, a gente nunca sabe quanto tempo vai durar a parte alta da montanha russa.

Após alguns acontecimentos de foro íntimo e familiar, cujos detalhes não devo expor, eu andava me sentindo muito bem. Tinha feito algumas coisas legais, e isso foi virando uma ótima bola de neve.

Eu estava tão de boa, mas tão de boa, que o meu próprio mau humor me chamou a atenção: notei que estava mal humorada. Achei isso um excelente sinal, pois a pessoa quando é cronicamente mal humorada, já nem nota mais que está assim. Pelo contrário, adentra numa onda de auto-justificativa, em que cada peido atravessado seria a chancela para ser um ser humano que, digamos assim, rebaixa a energia do lugar. Então estava de mau humor, ciente disso, e tentando melhorar.

Parei para apreciar as flores, e bem aqui em frente ao meu local de trabalho há uma árvore de magnólias que está particularmente frondosa e florida. Ao fundo, sons de caminhão e britadeiras me cortavam um pouco o idílio, mas viver em 2021 tem suas facilidades e seus obstáculos. Aproveitei e também apreciei as nuvens no céu. Segui caminhando na direção de casa, tranquila, quando um homem me abordou na calçada, na minha própria rua.

Ele perguntou o nome da rua, eu respondi. Ele pediu se eu poderia escrever o nome da rua no celular dele. Era estrangeiro, estava pedindo um uber e não sabia onde estava exatamente. Meu coração se confrangeu pela sua vulnerabilidade: um homem estrangeiro que pede ajuda para digitar um endereço no aplicativo. Eu estava com medo que ele fosse um maluco ou tarado.

Caminhei apressada mesmo após ter concluído que ele não era uma pessoa com má intenção. Motivo: a princípio, não era, mas a gente nunca conhece os golpes novos em curso. Queria ser uma pessoa franca e ingênua, mas perdi esse viço com o passar das experiências. Já vi o suficiente da minha espécie para concluir que não somos sempre os melhores parceiros um do outro.

Me consolei pensando que fiz a única coisa que ele realmente precisava de mim: que eu inserisse o endereço que ele precisava. Espero que um dia ele lembre de mim como alguém que o ajudou antes de sair correndo. E que não leve para o lado pessoal a minha pressa em me retirar.

5 minutos antes, eu havia saído do meu trabalho irritada com um pedido todo atravessado que havia recebido. Não gosto de gente que se expressa agressivo, com vocabulário extremo. Também sabia que eu poderia fazer pouca diferença no que a pessoa estava solicitando. Um e-mail me deu a sensação de ser inútil.

Uma digitada no celular me fez sentir um ser humano decente.

Desabrochou em mim a necessidade de encontrar mais maneiras de ajudar as pessoas como eu posso, não como eu quero.

Um oferecimento das magnólias que detonaram o efeito borboleta de ontem:

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