A falácia da autoridade médica

Depois de mais de dois anos, eu finalmente havia agendado uma consulta ginecológica na clínica aqui perto de casa que aceita meu plano de saúde. Por praticidade, optei por conhecer um novo profissional, uma vez que a consulta era de rotina e sem nenhuma queixa.

Depois de aguardar uns poucos minutos, uma senhora de seus (estimo) cinquenta e poucos anos, vestido e sandálias de salto baixo, me chamou pelo nome e eu acompanhei até a última sala do corredor. Dei as minhas informações básicas: data de nascimento, motivo da consulta (rotina), data da última menstruação, se tinha filhos (não), se havia feito a vacina do HPV (não).

– Pois deveria fazer.

– Mas eu já tive HPV, de que me adianta a vacina?

– Mesmo quem já positivou deve ser vacinada. Você não está protegida, se não vacinou.

– Nossa, que interessante, não sabia!

Aqui eu vou dar uma informação de utilidade pública pra vocês, que eu mesma pesquisei: a vacina pode ser tomada por quem já positivou, por existirem vários tipo de HPV. Ela não me esclareceu quanto a isso, mas como não considerei nada confiável vindo dali, optei por me informar de tudo. Segue uma matéria detalhada, para quem tem interesse no tema. Só clicar aqui.

– Método contraceptivo?

– Preservativo e fé (risos). Não quero engravidar, mas também não me importo a ponto de usar outro meio, por mim tudo bem.

– Pois é aí que eu tenho que te dizer que não é tudo bem. E eu vou explicar o porquê.

Vira uma folha de receituário pelo verso, pega a sua caneta e faz duas linhas paralelas. – Aqui é você com 20-30 anos, atravessando a rua, na faixa de segurança com o sinal vermelho. Você está com tudo ao seu favor. Cumpriu todos os requisitos e circula com tranquilidade.

Então ela continua nas mesmas duas linhas, e desenha várias bolinhas no espaço entre elas.

– Dos 35 aos 40, você está atravessando fora da faixa, com o sinal vermelho. Muitas pessoas fazem isso, e não são atropeladas. As chances de você ser atropelada aumentaram muito, mesmo que você olhe para os dois lados.

E então ela continua com uma curva e preenche totalmente o espaço com múltiplas bolinhas.

– Aqui é você, a partir dos 40, no sinal verde, com uma curva e muito movimento na avenida. É claro que você ouve histórias de pessoas que fizeram isso e sobreviveram. Mas o risco é muito grande, entende? Você quando descobrir uma gestação acidental, já vai estar no mínimo de 4 semanas, sem tomar ácido fólico. O tubo neural, que precisava disso, já se formou defeituoso. E você não pode mais fazer nada, sendo que poderia ter feito. Então se você não quer, é preciso tomar uma medida definitiva agora.

(Acho de bom-tom informar que essa questão do ácido fólico é controversa e não recomendada em 100% dos casos, aliás, como tudo. É preciso ver nos exames se você tem deficiência da vitamina B9, da B12 e aí sim, suplementar, considerando todas as frações do complexo B.)

– Eu não vou usar anticoncepcional de nenhum tipo mais.

– O seu marido pode fazer vasectomia, já que vocês têm certeza.

– Ah pode? Que eu saiba a lei não permite.

– De fato, não pelo SUS, mas procurando o profissional certo na rede privada, vocês já eliminam isso. É um risco muito grande, totalmente desnecessário.

Eu ouço tudo isso com crescente desagrado mas estou muito decidida a fazer o meu preventivo, afinal, são dois anos sem fazer, eu já estava ali. Não cogitei em momento nenhum confronta-la (por questão de segurança, jamais provoco gente que vai revirar um espéculo dentro das minhas partes).

No entanto, ela segue questionando essa minha ideia de não ter filhos. Digo que não tenho vontade, já deveria ter tido vontade. Quero fazer outras coisas. Ela pergunta que coisas, eu digo genericamente:

– Mudar de profissão, ganhar mais dinheiro, viajar…

– Eu digo a todas as minhas pacientes: tudo o que elas querem fazer antes dos filhos, são coisas que elas podem fazer sem data pré-definida. Só os filhos que têm que acontecer numa certa faixa etária.

– Ah, eu não me importo com a faixa etária, sempre posso optar pela adoção.

– Eu digo sempre: a mãe de 20 anos leva o filho no parquinho e só olha o celular. Nem repara se ele caiu. A mãe de 25, um olho no celular, outro no filho. A de 30, só olha o filho. Já a de 40, nem leva o filho ao parquinho, tem muita neurose, medo de tudo, não socializa a criança, o abismo geracional é imenso e ainda acaba morrendo e deixando um jovem desamparado…

E por aí seguia o rebosteio. Não vou conseguir relatar ipsis literis, mas acredito que dei um bom panorama. Ela coletou meu preventivo, pediu que eu deixasse o tubo na recepção e se despediu ainda dizendo:

– Se decidir ter filhos, não esqueça de ir logo no obstetra e começar a se preparar, ok?

Sorriu e ficou satisfeita, como quem tivesse hoje salvado mais uma alma perdida da escuridão.

O fato de que eu não perguntei absolutamente em nenhum momento a opinião dela, pelo visto, passou pelo seu filtro. Assim como o fato de que eu poderia ser uma pessoa em dúvidas quanto ao que fazer sobre ter filhos ou não. Eu podia de fato ter pessoas autistas na família, e me sentir ofendida pela maneira como ela comparou crianças com má formação congênita a atropelamentos fatais. Eu podia ser filha adotiva. Minha mãe podia ter me tido (ou adotado) aos 40.

Com uma falta de tato que jamais havia observado numa consulta médica, fui-me embora profundamente arrependida de ter arriscado aquela clínica. Nunca mais, pensei comigo mesma. Aí chego na recepção, a moça abre um caderninho e descobre que meu convênio não trabalha com aquele laboratório.

Vou-me embora com meu precioso tubo contendo uma lâmina onde estava o meu material de exame, feliz em saber que ela nunca mais irá pôr os maldosos olhos em cima de mim ou das minhas partes. Me sentindo invadida em cada recôndito da minha vida, pondero a respeito de quantos profissionais equivalentes estão por aí, escondidos atrás de mesas mal arranjadas, com agenda eternamente livre para incautos caírem na primeira experiência. Se atualizando por guidelines fornecidos pelos laboratórios de quem ela recebe amostra grátis, carimbo cravejado de strass e outras ninharias.

Ignorando o ser humano à sua frente, vomitando os seus preconceitos e frases de efeito, travestidas de uma grande sabedoria. Usando o título como escudo. Se intrometendo na vida privada e nas decisões de foro mais íntimo na vida de uma mulher.

Divulguei o nome da médica a todas as minhas colegas e amigas que moram aqui perto, como um alerta de que não devem ir até lá. Mas o que me dói é saber que essa foi a primeira, mas talvez não seja a última vez que eu me depare com esse tipo de situação.

Cuidado com gente que te aconselha sem a sua solicitação. Mesmo que costumem chamar a pessoa de “doutora”.

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