Algumas ideias soltas sobre os rumos da (minha) vida no digital

Eu sou uma heavy user de redes sociais desde que a internet foi criada. Na verdade, um pouco antes: em 1998, uma amiga me contou que existia um número chamado Disk Amizade, onde você pagava apenas o “pulso” de uma ligação local, e podia conhecer pessoas novas pelo telefone, mudar de “sala” e até pedir para ficar numa linha privada apenas com uma pessoa que você tenha gostado de conversar no geral. Eu mesma brinquei pouco no 145, mas tenho uma vizinha que namorou DOIS caras assim.

Usei o mIRC, o ICQ, o fotolog e depois, que nem todo mundo, aderi ao orkut, facebook e instagram. Amei o snapchat e ainda tenho instalado no meu celular. Esse blogue é vestígio da minha vida online iniciada em 2003, quando fundei o meu primeiro blog, na plataforma weblogger – e eu amava isso. Dito tudo isso, onde tem um buzz de pessoas usando alguma coisa, é altamente provável que eu me encontre lá.

Eis que de uns tempos pra cá, com o advento de eu ter me formado terapeuta ayurveda, eu havia lido sobre como o mundo digital é o futuro, e que você precisa aparecer, criar conteúdo, gerar valor para as pessoas – e assim, quando elas precisarem de um profissional da sua área, você será a escolha mais natural. Eu realmente me dediquei a entender o assunto, e comprei dois cursos ensinando a usar o instagram melhor.

Se alguém quiser um resumo, aqui vai: poste muito, sempre, e não deixe de falar um pouquinho sobre você. Poste bastidores, porém edite bastidores de modo a torná-los atrativos ao seu público. Defina que público você quer atingir, que nicho você quer falar, e fale disso sempre, em diversos formatos. Volume e constância são importantes, a estética é secundária porém não faz mal.

E eu realmente tentei me aprofundar nesse formato. Durante muito tempo, me dediquei a criar carrosséis em que explicava da forma mais simples que conseguia, alguns conceitos chave de ayurveda, saúde no geral, etc. Fiz um bocado de coisas, e espero genuinamente ter ajudado alguém com isso. Jamais recebi um comentário que fosse agradecendo, mas vai saber.

Você aprende a monitorar seus números: quantas pessoas te seguem, quantas dão likes nos seus posts e quantas pessoas assistem os seus stories. Para cada atitude, um valor é atribuído e o jogo muda de vez em quando. E é aí que você começa a sentir um certo receio de postar aquela foto meio sem foco da sua taça de vinho – ela tem pouca chance de engajar. Você se dedica numa pose qualquer, sua ou do objeto que quer fotografar, monta aquilo, e o negócio recebe, vamos dizer, 31 likes. E você sente um cheiro de derrota no ar – a foto flopou.

Você vê alguma influenciadora passar cerca de 2min postando uma sequência de stories explicando algo banal como o jeito que ela planeja a mala dela, e se sente encorajada a “aprofundar” um pouco seu conteúdo, gravando cerca de 7 vídeos de 15 segundos cada, explicando algo sobre como você pode dormir melhor. Só para ver, horas depois, que metade das pessoas se evadiu dos seus stories porque você “fala demais”. Seus amigos dizem que pulam tudo o que você fala, rindo. Você ri amarelo, pois acha mesmo que não era tão chato assim o seu assunto. Mas quantas vezes já pulou o deles também?

Para cada “você” escrito aí em cima, saiba: era eu. Eu tentando bolar alguma forma de me comunicar com pessoas que não conheço, mas que penso que poderiam gostar de me contratar. Digo mais: eu não fiz tudo o que fiz só para divulgar um trabalho. Eu fiz para repassar algumas informações que eu havia adquirido, e que eu havia fuçado para encontrar. Então me ocorreu que podiam haver outras Thais por aí querendo entender daquele assunto.

Mais ou menos quando concluí meu curso, em outubro, eu tinha a ideia de divulgar horários, preço e metodologia de atendimento individual. Só que esbarrei em algo que não conseguia atravessar: a minha mínima vontade de fazer isso. Eu não queria continuar me divulgando, nem correr lançar outro ebook de receitas. Eu só queria fazer o (muito) que eu já fazia na vida: trabalhar no meu emprego, as tarefas domésticas, os cuidados com a minha saúde e os meus poucos relacionamentos profundos.

Mas aí, algo muito maior vinha se aproximando e eu não tinha nem ideia de como isso me incomodaria: a Black Friday, que para muitas marcas, começou no dia 1/11. Marcas que eu consumo cotidianamente, de alimentos, suplementos, roupas, calçados, cosméticos e muito mais, estavam oferecendo coisas incríveis. E eu comecei a anotar e printar as ofertas que me pareciam mais interessantes. Como se fosse uma lista de desejos analógica, cuja ideia era decidir tudo na reta final, dia 26/11/2021 -a efetiva Black Friday.

No sábado, dia 25, eu tinha passado algum tempo vendo postagens aleatórias e, no meio delas, muitos anúncios diretamente envolvidos com os meus itens de maior interesse. Eu queria comprar um planner diferenciado em 2022, e eu recebia TANTO anúncio que estava vendo repetidamente anúncios de marcas que eu mesma havia descartado anteriormente. O que começou como algo que me interessou, se transformou num ruído chato, uma pedra no meu sapato.

Caí num storie de uma especialista em marketing digital, que explicava numa caixinha de perguntas que o custo do tráfego pago havia realmente aumentado muito naquele período, afinal eram muito mais marcas físicas e digitais disputando a atenção do usuário, como se fosse um paredão de neon em Las Vegas – a cacofonia cria um efeito divertido, porém impossível de diferenciar quem é quem no meio de tantos letreiros.

Um pouco irritada sem nenhuma explicação plausível, deletei o aplicativo durante 8 horas naquele sábado. Tive muita paz e sossego, faxinei uns cômodos em casa, assisti a dois filmes e me senti aliviada. Voltei logo a seguir, considerei uma pausa da minha vista, e a vida seguiu.

Em dezembro, tirei umas férias no Nordeste e me preparei com diversas distrações offline: levei bons livros, meu diário de viagem (de papel) e fui curtir a natureza estonteante que havia lá. Nas primeiras 36 horas, me chamou a atenção o fato de que eu estava com a incômoda sensação de que havia esquecido alguma coisa, mesmo já estando bem longe de casa e do trabalho. Aos poucos, tudo passou e rapidamente a alegria do não fazer nada se estabeleceu.

Já de volta, dia 23 de dezembro estava dentro do carro para uma curta viagem de 2h, em que acessei minhas redes sociais de forma compulsória mais ou menos umas 30 vezes. Talvez até mais. Me vi um pouco impaciente, como que querendo mais uma dosezinha de dopamina, e irritada com a pouca que havia recebido. Enquanto adentrava a cidade, deletei o instagram de novo, pelo menos até o feriado acabar.

Novamente, me inundou uma sensação de alívio, não de vazio. Eu estava cheia, transbordada, saturada de informação e conteúdos. Me senti ótima durante todos os dias que o experimento durou. No domingo à noite, dia 26, reinstalei o app e vi que havia perdido algumas notificações e haviam 6 mensagens inbox. Reações aos stories, marcações dos stories. Por precaução, eu havia começado a ler um livro de Agatha Christie (amo desde criança e sempre me prende), e optei por não ir ver o que os produtores de conteúdo que costumo consumir mais haviam postado. Tive genuíno receio de ficar sem sono, se entrasse novamente naquele túnel.

A sensação que me dá, como usuária da plataforma, é que assim como todas as outras formas que já citei anteriormente, o instagram acabou. Não vai ficar melhor, simplesmente daqui a pouco algo mais interessante vai fazer a maioria migrar e isso sempre foi meio natural – quem não lembra daquela boate muito bombada que depois de uns dois anos de auge, ninguém mais queria ir? Várias vezes, olho pelo costume, e quando entro e rolo o meu feed, a sensação de tédio, mais do mesmo, uma certa irritação até, me invade.

Como profissional que tentou (mesmo) produzir conteúdo, o ambiente é de uma radioatividade total. Você produz o seu conteúdo, e ele é rapidamente tragado para as profundezas do algoritmo, sem que você possa buscar por data, ano ou mês. Tentando capturar a atenção das pessoas, mas também mirando na entrega que o algoritmo performa, você começa a modificar o seu estilo de escrever, falar, produzir uma foto ou um vídeo que seja. Tenho profunda compaixão pelas tantas profissionais de diversas áreas que vi fazendo dancinha no reels em 2021.

Definitivamente, não as vejo como parte da solução, mas não dá pra dizer que essas pessoas sejam o problema. Existe algo de podre no reino das redes sociais hoje, mediado pela disputa da nossa atenção, e por eu já não ser mais tão novinha assim, começo a buscar forma de preservar minhas sinapses. Por mais que eu curta aquela navegada à toa pelo feed de alguém que eu gosto, deixar uma live de conteúdo rolando enquanto eu lavo uma louça, algo do encanto se quebrou e eu vejo com nitidez que estamos entre o velho e algo que ainda não surgiu.

E eu não acho que seja o metaverso, não. E nem que seja o “suicídio” virtual, um ode ao passado, sem esse tipo de mediação. Algo vem, sempre vem algo novo. E eu estou ansiosa e aberta a esse novo, pois o velho definitivamente tem me causado desconfortos demais.

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