Do que vocês riem?

Vantagens da internet em 2022: incontáveis. Desvantagens da internet em 2022, porém já verificável desde os seus primórdios: descobrir que pessoas que você curte no ao vivo, são muito covardes e até um pouco cruéis online.

Em 2018, a trabalho, eu conheci uma moça cuja beleza me chamou a atenção no momento em que conversávamos. Ela saía de uma internação de quase 30 dias numa instituição psiquiátrica, após um surto maníaco de bipolaridade. Mesmo sofrida, desalinhada, ela cintilava. Além de bonita e jovem, ela era muito simpática e conversava bem. Ria com gosto e me despertou afeição.

Essa moça me contou que, inicialmente, não acreditava ser bipolar ou mesmo estar em surto. Porém, alguns dias depois de internada, chegaria à sua ala uma segunda paciente na mesma condição. E algo triste e comum entre mulheres com transtorno bipolar de humor, é uma libido exacerbada, que pode levar a pessoa a adotar comportamentos sexuais de risco. Lá dentro da instituição, as duas não deixavam nenhum enfermeiro em paz. Ela me contou que, ao ver a novata, se reconheceu e admitiu que também passava por isso.

Conversamos longamente, e nos despedimos ao final do atendimento, comigo achando que ela estava melhorando. Eis que chega, minutos depois, o laudo do médico que a atendera também: mencionava, entre alguns outros sintomas, que ela continuava com a conduta hipersexualizada. Comigo, não ocorreu nada, mas com o médico, ela tentou.

O fascínio que ela exercia por onde passava era de tal monta, que nos poucos minutos em que ela aguardou na sala de espera, um dos maiores gerentes da minha área fez questão de conversar com ela, sem que houvesse nenhum assunto em comum entre eles. Parecia que todo mundo enxameava ao redor dela. Parte pela beleza, parte pela receptividade.

Da última vez que tive notícias, ela havia perdido a guarda do filho, o emprego (do qual pediu demissão impulsivamente e se arrependeu tarde demais), tinha brigado com algumas pessoas. Acredito que siga pela vida oscilando, às vezes sofrendo, e às vezes fazendo as pessoas ao seu redor sofrer. Um traço muito comum entre pessoas com esse transtorno é justamente resistir ao tratamento quando estão na fase maníaca. Outro, é acabar cometendo suicídio quando na fase depressiva, já que é insuportável o sofrimento.

Lembrei de tudo isso imediatamente, quando soube de um caso asqueroso em que um marido bate num morador de rua que estava transando com sua esposa dentro de um carro. E o que parecia ser um ataque, na delegacia foi dito como consensual. Ela ainda justificava que o havia abordado, orientada por Deus. Com esses poucos elementos, na hora, me soou um alarme interno: trata-se de uma pessoa doente.

As piadas machistas contra o marido já eram de péssimo gosto. Mas acharam por bem, trazer o morador de rua para ser entrevistado. E aí o que já era terrível vai ganhando contornos cada hora mais grotescos. Conscientemente eu desvio de absolutamente todas as matérias e postagens que sigam o fio dessa situação. Mesmo assim, tive o desprazer de receber figurinhas em grupos de whatsapp e ver com desapontamento que pessoas que eu considerava de bom gosto, se divertindo com essa situação.

A palavra que melhor descreve essa situação toda, me parece ser tragédia. A degradação de um ser humano que vive nas ruas, se alimenta de restos, raramente recebe um olhar nos olhos e de repente está vivendo algo como se um auge. A miséria de trazer essa pessoa para se pronunciar, descrever com riqueza de detalhes o que teriam feito juntos ele e a mulher, para a chacota pública sustenta-lo por algum tempo. Um casal que tem uma história juntos, e agora tem um acontecimento desse tipo para processar.

Se em foro privado já seria difícil um relacionamento sobreviver a um acontecimento desses, não consigo conceber a ferida aberta que é ser noticiado em cada canto do país. Suportar os olhares nos locais em que frequentam, e o tom jocoso que as pessoas usam sem nenhum tipo de consideração. Ser uma mulher, doente, em surto, se colocar numa situação desse tipo, e terminar publicamente conhecida por esse fato.

É tudo tão trágico e de mau gosto, que me amarga o gosto na boca. Passei semanas pensando em coisas que queria escrever aqui, calhou de conseguir escrever sobre isso. Se algum dia, essa moça pular de matéria em matéria, quero muito que ela saiba que nem todo mundo considera o que aconteceu com ela motivo de riso.

2 comentários em “Do que vocês riem?

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