Minha experiência com COVID-19

Junho foi um mês bastante difícil para mim. Alem da morte da minha avó, no dia 25 eu testei positivo para COVID. Mas vou começar a relatar do começo, do meu provável dia 1, que foi no dia 19 de junho, um sábado.

Dia 1, por volta de 2h da manhã: sinto uma cólica forte, intensa, impossível de ignorar. Começa uma crise de diarreia muito aguda, com dores e várias idas ao banheiro na madrugada toda. Como eu tenho síndrome do intestino irritável, eu não dei muita atenção a esse fato.

Achei que era intoxicação alimentar, e agi de acordo. Tentei me alimentar com bastante consciência, embora não tenha sido muito facil – eu estava na casa dos meus pais em São Paulo.

As dores amenizaram e o dia foi passando, com o único inconveniente de que nada que eu comia ficava dentro de mim.

No dia 2, eu tinha programado uma viagem de carro, cuja duração seria cerca de 7h. Me preparei o melhor possível: fazendo jejum, haja visto que nada parava dentro de mim, comprando água e torcendo que tudo ficasse bem. Menos de 1h depois, entramos na cidade de São José dos Campos para comprar Tropinal, um analgésico específico para dores abdominais, que estavam agudíssimas. Com o medicamento, as dores acalmaram, com o jejum, a diarreia também. Eu sentia no geral um mal estar bastante inespecífico, totalmente atribuível ao problema que estava.

Fazia um calor digno do estado do Rio de Janeiro, mas eu morria de frio cada vez que o ar condicionado era ligado. Isso não é novo, mas como eu me sentia abatida, fui no banco de trás, enquanto Waffles se deliciava com a vista e o ar condicionado perfeitos do carona.

O danado sorrindo

Dia 3, segunda-feira e primeiro dia do inverno, eu já me sentia bem melhor. As dores haviam acabado, a infecção intestinal (pelo visto) também, estava um frio bem relevante e nós estávamos exaustos. Passamos o dia inteiro dormindo, lendo, dentro do flat. Não sentia nada que pudesse sequer contabilizar.

Dia 4, já nem tenho mais nada a relatar. Me sinto cada dia melhor, ao mesmo tempo em que meu namorado passa a se queixar de um resfriado. O que não seria de estranhar, considerando que cruzamos o país em menos de 4 dias, pegamos todo tipo de temperaturas e ele havia passado vários dias gravando de madrugada. Ele vai administrando essa sensação com Naldecon, enquanto eu melhoro a olhos vistos.

No dia 5, o sol volta a aparecer e decidimos ir à praia. Escolhemos uma especialmente vazia, que se acessa através de uma minúscula trilha de cerca de 15 minutos. A água certamente estará gelada e o sol não está tão quente, mas a vontade de entrar no mar é tanta, que pensamos que isso seria muito bom e curaria essa urucubaca toda. Em algum ponto escadaria acima, me pego ofegante e sufocada dentro da máscara, coisa que jamais havia me acontecido em todo esse ano e meio. Vamos à praia, mergulhamos, o vento não dá trégua e decidimos ir embora logo depois. Tomo um banho quente e me sinto bastante mal nesse dia, com dor de cabeça e calafrios. Penso que a exposição ao mar gelado com o vento foi o problema.

No meio do nada, passando frio.

Dia 6, estamos ambos melhores. Sensivelmente melhores! Todos esses fatores ainda não foram juntados numa história só, parece tudo uma grande e desconexa maré de azar. É nosso último dia na cidade e vamos almoçar num restaurante especial, com área externa. O lugar está totalmente vazio, o único garçom que interage conosco nos atende rápido. A comida está uma delícia, mas meu namorado começa a desconfiar de que está sem olfato.

Começamos a fazer ele cheirar mil coisas, e somente aquelas com o cheiro bem concentrado ele consegue perceber. Nossa desconfiança chega finalmente ao nível máximo, só que nenhuma cidade da região está fazendo o teste. Agendamos para o dia seguinte, em São Paulo.

Quando o otimismo nos fez sair para comer – e meu namorado se percebeu sem olfato.

Dia 7 – a viagem é um suplício, meu namorado dorme quase que o dia inteiro, enquanto eu dirijo. Eu também começo a achar que meu olfato está fraco. Em algum ponto do dia, eu o perco completamente. Quando chegamos na farmácia, tem algum erro no sistema e o teste não estava agendado, mas eles realocam. O moço que me atende pergunta se realmente o teste é pra mim, pois estou ótima e não pareço ter sintomas.

Na farmácia, fazemos a coleta e aguardamos cerca de meia hora pelo resultado. Quando a moça me chama, diz que ambos positivaram, e que está MUITO positivo (acredito que o nível do reagente está alto). Comunico minha mãe, que havia passado as últimas 8 horas minimizando e fazendo pouco de tudo o que eu contava e que agora via que eram sintomas(não sem alguma discussão entre nós), e ela sai com meu pai de casa para serem testados. Ambos positivos também.

Entro em contato pelo whatsapp com o meu médico, um clínico geral maravilhoso que também é um bom amigo. Peço orientação e ele me prescreve 5 dias de corticoides e um polivitamínico específico, além de ser categórico em dizer que a gente não se aproxime de ivermectina ou outras bobagens.

No dia 8, estamos todos com o moral bastante abalados, mas tranquilos, pois ninguém está com sintomas graves. Sinto uma ardência no nariz, como se tivesse pingado algum tipo de remédio forte lá dentro. Vou estimulando meu olfato com óleos essenciais, o paladar está também meio tapado, mas tudo corre bem. Meu namorado (o único que não tomou nenhuma dose da vacina ainda) dorme quase as 24h do dia, sente-se completamente debilitado.

Aviso o restaurante que comemos 2 dias atrás e eles enviam o garçom que nos atendeu para teste. Ele está bem, o que me deixa aliviada. Isso e o fato de que só precisamos nos preocupar com ele, pois não tivemos contato com mais ninguém.

Eu estou quase ótima, com a mente alerta, sem nenhuma indisposição. Levo os cachorros para passear sem dificuldade, subimos ladeiras e é a única hora que sinto me faltar o ar. Compramos um oxímetro e descobrimos que todos estão com a saturação acima de 90%.

Dia 9, domingo, é ainda melhor que o dia 8. Meu namorado continua abatido, meu pai começa com uma vermelhidão no rosto e muita tosse. Eu já estou ansiosa e recomeço a estudar e trabalhar pelo computador. Meu olfato ainda fica fraco, mas mais nítido que no dia anterior.

Dia 10 é o fim das minhas férias e o dia que decidimos voltar para casa. De novo, meu namorado desmaia quase que a maior parte do trajeto. Meu pai precisa ir até o hospital por causa de uma tosse, que no caso dele, é um princípio de pneumonia e entra com o antibiótico. Nosso olfato já voltou. Peço na mercearia da minha confiança que eles separem uma caixa com os alimentos que eu preciso, assim não preciso entrar no lugar nem tocar nos alimentos. Colocamos isso no carro e chegamos em casa.

Dia 11 é meu aniversário. Estou feliz por estar viva, em casa, com saúde, trabalho, amor. Mas é sem dúvidas o aniversário mais esquisito que já tive. Peço no grupo da família que enviem o texto que minha Avó me mandou em 2020, para relembrar. Peço um bolo pelo ifood, improviso uma vela, e meu namorado se segura em pé durante alguns momentos naquela tarde. Ele apaga as velas antes que eu possa curtir e não cantamos parabéns.

Vou dormir um pouco melancólica, chorosa, de saudades da minha avó. Ansiosa para retomar a rotina.

No dia 12, já posso retornar ao trabalho presencial, uma vez que não tenho mais nenhum sintoma. Meu namorado passa toda a semana ainda dormindo, e tendo crises de suor. Nosso apetite desapareceu, mas o pior já foi, com certeza.

Hoje fazem 25 dias que positivei. O olfato já retornou completamente, e o fôlego também. Já voltei a fazer pilates normalmente, estou trabalhando e estudando sem nenhuma outra questão. Seguimos fazendo a suplementação indicada, e tudo parece ter sido mentira.

Mas não foi. No mês mais atribulado do ano, além de ter entrado em hospital, num funeral e em dois restaurantes, algo deu errado na nossa prevenção e o resultado foi esse. Quando penso que sentei à mesa com meu avô de 80 anos, me alivio sabendo que não tirei a máscara em momento nenhum. Penso em todos os cafés que recusei, nos estabelecimentos por onde passei.

Tirando isso, ficamos em casa, saindo para passear com o cachorro de manhã e à noite. Penso em todos os vizinhos que gostam de se intrometer no elevador, e adoraria dizer ESTOU POSITIVA, PODE ENTRAR!, mas nenhum deles se oferece. Nunca pedi tanto ifood quanto naquelas semanas, mas mantemos a nossa alimentação simples e nutritiva.

Melancia, beterraba, limão, linhaça.

Fico com um desejo estranho e curioso por carne vermelha e por feijão preto, dois alimentos que em geral não me apetecem muito. Quando consulto minha nutricionista, alguns dias depois, ela não tem nada a acrescentar, o tratamento foi um sucesso.

Retomamos a nossa rotina de trabalho e de ficar em casa. Relembro com amargor uma conversa, dentro do carro, em que a minha mãe dizia que eu era excessivamente radical com o tamanho do isolamento que pratico. Bem, o resultado fala por si só. Foi abandonar o meu “radicalismo” por poucas ocasiões, que a infecção veio.

Eu trabalho presencial 5x na semana. Passeio a pé com o cachorro diariamente. Pratico pilates 2x na semana. Vou ao supermercado a cada 7 dias, em média. Viajo para o sítio a cada 2 ou 3 semanas. Desde quando isso é estar preso em casa?

Isso me parece uma vida bastante movimentada, até. Mas cheguei nesse número de atividades após refletir e analisar o que poderia manter, e o que não poderia. Já se vão dois anos sem ir ao dentista, à ginecologista, por exemplo. Aliás, pretendo agendar ambas atividades em breve, sempre espaçando com pelo menos 15 dias entre uma e outra.

Agora que já tive COVID uma vez, minha preocupação não diminuiu. Sei que posso pegar de novo, e quero evitar isso ao máximo. Nunca fui indisciplinada com o uso de máscara, lavação das mãos, e vou continuar levando essa proteção a sério. Mesmo já estando vacinada, me mantenho vigilante, pois mesmo assim tive a doença.

Tenho intensificado os bons hábitos de alimentação e atividade física, alem da suplementação, para tentar manter “a casa arrumada” para uma nova infecção. Não estou querendo isso, nem me expondo, mas é uma possibilidade que não posso ignorar.

Espero que ninguém que me leia tenha algum problema parecido, mas achei que valia o relato da experiência para quem precisar.

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