Ana Paula, a menina que eu sempre quis ser (e nunca fui)

Ana Paula é um pseudônimo para essa menina de nome composto, que por acaso dos bons encontros, me segue no instagram. Talvez ela me ache uma psicopata e não se sinta homenageada, então preservei.

Em 1991, talvez antes, eu comecei a estudar com Ana Paula. Ela era uma menina um pouco mais bem ajustada que eu, no geral: as perninhas e bracinhos dela não eram tão compridos. As bochechinhas dela faziam covinhas ao sorrir, e ela parecia sempre tão limpinha, com o uniforme direitinho, com tudo no lugar.

Mas Ana Paula não era só assim ajeitadinha: Ana Paula era muito querida pelas nossas professoras, ela era esperta, copiava rápido a matéria do quadro, e ia bem na Educação Física também. Seu material escolar estava sempre em ordem. A sua caligrafia era redonda e grande, e eu tentava imitar, quando caprichava nos meus cadernos.

Ana Paula parecia ser tudo o que eu não era: alguém que tinha domínio das suas atividades e afazeres, ia bem nos estudos, nos esportes, tinha amiguinhas legais e as professoras adoravam ela (já falei isso?).

Ao voltar para casa, eu passava na frente da sua casa: eu nunca fui à sua casa, nós não éramos amigas. Mas eu via o quintal e a garagem da casa dela, e imaginava como devia ser bom morar na casa de Ana Paula e ser um pouco ela, para variar.

Eu com essa idade, 8 aninhos ou menos, já me sentia muito errada no geral. A sensação era que eu estava sempre em desalinho, os cabelos já desafiavam a gravidade, o uniforme não ficava muito direito em mim, e eram duas camisetas pra semana inteira – de modos que no inverno, era preciso repetir “pra terminar de sujar”.

Eu apostava como Ana Paula não precisava disso e devia ter logo umas 7 camisetinhas de uniforme, todas bonitinhas lá no seu quarto imaginário. Eu apostava como o quartinho dela era de alvenaria, enquanto o meu era madeira. O quarto dela devia ser luminoso e seco, enquanto o meu era meio úmido, especialmente no frio.

O fato de que ambas morávamos numa das cidades mais úmidas do Brasil, eu convenientemente ignorava – Ana Paula nunca teve goteira em casa!

Com o passar do tempo, e a minha absoluta inadequação ao ambiente escolar ficando cada vez mais crônicos, eu mudei de escola muitas vezes – e em algumas delas, voltei a cruzar com Ana Paula.

Ela, além de tudo, era muito simpática comigo, gente boa demais – a gente às vezes se falava, tudo muito superficialmente, mas voltava aquela sensação de como devia ser bom ser Ana Paula nessa vida.

Enquanto eu me esfolava em todos os dissabores possíveis na infância e adolescência, Ana Paula me parecia ter passado por eles sem tirar um fio de cabelo do lugar, deslizando pela vida. Distante desse referencial no meu dia-a-dia, fui me empoderando de ser essa “bagunceira” crônica, incorrigível, desproporcional nas medidas, pele cheia de espinha, cabelo rebelde, mente caótica.

Algo que ela certamente não imagina, é que 20 anos atrás, nós nos encontramos numa festa e eu estava vivendo o último ano de colégio: colando pra passar nas provas finais, ela já na faculdade, pois é lógico, que eu reprovei em algum ponto da jornada enquanto Ana Paula certamente só passou direto.

Ela não: ela estava na faculdade e eu perguntei o que ela estava fazendo, pois andava sumida, e ela disse, sorrindo com aquela serenidade de sempre:

– Tô lá em Floripa…

Ali eu juntei umas mil equações na minha cabeça: aquela menina brilhante tinha passado na federal. Óbvio, né, minha gente! Fez todo o sentido do mundo que ela estivesse lá. Ela sempre foi tão aplicada, ia bem nos estudos!

Mas nesse momento, eu também percebi uma coisa, que talvez tenha virado a minha própria chave: eu não tinha como ser ela, esse navio meio que zarpou quando a gente nasceu, mas eu queria ir pra Floripa também.

E era dezembro, as provas do vestibular começariam em algumas semanas, e eu não só não tinha estudado nada, como havia colado até pra passar de ano. Mas tudo bem: agora eu ia (finalmente) me puxar e acabaria, de fato, passando no vestibular 4 semanas depois.

Em 8 semanas, eu também morava em Floripa e começava a construir outra identidade. Nunca encontrei Ana Paula por lá. Pelas redes sociais, eu sabia que ela fizera intercâmbio, viajara o mundo, parecia tão feliz e ajustada quanto sempre.

O mundo de Ana Paula sempre me pareceu mais idílico, os interesses dela mais interessantes, parecia que ela acessava um universo totalmente diferente do meu.

Hoje eu me pergunto como seria saber quais eram os bastidores de Ana Paula: será que ela chorou por alguém que não gostava dela? Será que seus pais não eram tão bons com ela quanto eu queria crer? Será que (heresia das heresias) ela tinha só duas camisetas de uniforme que nem eu?

Acho que a pequena Thaís não resistiria a essas informações. A maior tem curiosidade, mas noção também – não tem cabimento perguntar coisas desse nível de intimidade a quem não é sua amiga.

O fato é que, caso eu tenha uma filha algum dia, eu provavelmente a chamarei de Ana Paula (não esse pseudônimo, o seu nome composto real, que é lindíssimo), só pela impressão que essa menina me causava 30 anos atrás.

Não há nada que eu pudesse desejar mais pra uma filha minha, do que uma vida como a de Ana Paula, ou pelo menos, aquela que eu idealizei a vida toda.

Hoje, à luz dos meus anos e anos de psicoterapia, vejo que a imagem de Ana Paula contribuiu grandemente para o meu perfeccionismo e autocrítica serem tão altos – mas não consigo resistir à versão ideal de Ana Paula.

Ela é aquele ideal de harmonia e encaixe perfeitos, em que nada parece ser muito grave. Essa visão de Ana Paula provavelmente mais me atrapalhou do que ajudou, salvo no dia em que ela me puxou para dentro da UFSC sem nem saber.

Ana Paula, eu juro que não sou uma psicopata – só sou sua fã desde pequeninha.

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