O que deu para apreender da Escandinávia

O verbo “apreender” é apropriado – aprender acho que exige um pouco mais de prática. Mas tendo estado em Estocolmo e Oslo pela primeiríssima vez em maio deste ano, me serviu como uma janela que se abriu, para ver novas formas de lidar com o mundo.

E eu andava bem desejando um pouco de ver novas paisagens na janela, sabem? Então foi um refresco muito interessante do que estou acostumada a ver do lado de cá.

É claro que já havia lido a respeito de como na Suécia as coisas funcionavam super bem, e como os impostos eram altíssimos porém bem empregados, também havia lido sobre “modernidades” do tipo não usarem mais papel moeda. Vejam, eu faço o meu dever de casa, e costumo empregar muitas horas nesse processo de estudar a cultura local e não chegar metendo uma gafe muito feia logo de cara.

Chegando em Estocolmo, logo no primeiro minuto, eu fui abordada pelos funcionários do aeroporto. Minha vestimenta chamava a atenção naquele mar de neutros, parecidos vindos de um consultório de estética elegante. Após ser liberada pela primeira vez, ainda fui interceptada uma segunda vez, e liberada na sequência – eles passaram minhas bagagens pelo raio-x.

A hipótese do meu irmão é que estávamos na temporada dos festivais/raves e eles poderiam ter me confundido com alguma alemã cheia de coisinhas para vender nos locais. Nunca saberemos, só sei que não foi um caso de racismo – mas algo em mim não combinava com a norma.

Você me fiscalizaria nesses trajes? Eu amei

Desde a primeira corrida de táxi fora do aeroporto, lidamos com as coisas já definidas com antecedência, como a tarifa até o bairro em que ficamos. No nosso airbnb, lidamos com a entrada sem nenhuma necessidade de contato humano, além de toda a funcionalidade bela daquele lugar. Me senti rapidamente aclimatada naquela arquitetura que tanto lembra os joguinhos de criança, o pequeno arquiteto.

Inúmeros prédios de tijolinhos vermelhos aparentes.

Algo que me fez ficar pensativa foram os jardins cultivados e as flores à venda, haja visto que estive lá na primavera. São quase 10 meses de frio intenso no ano, e de repente (ou nem tão de repente assim), você vê a primavera irrompendo incontrolável. Tapetes de flores miúdas nos gramados, essas mesmas flores revoando como se fossem floquinhos de neve – e eventualmente causando alergias respiratórias nos mais sensíveis.

Seria maravilhoso se foto guardasse aroma

Mas não é só a primavera espontânea que brota por cada fresta dos jardins e das diversas praças: as pessoas cultivam jardins que não irão durar mais que poucas semanas. E eu fico ensimesmada, pensando cá comigo, que se eu fosse eles, era bem provável que não cultivaria os jardins com tamanho afinco.

Cultivar um jardim numa terra tão fria é tão inútil quanto cortar um pinheiro na floresta só para a noite de Natal: o esforço é muito, o resultado é pífio. Mas e não é disso que se faz a nossa vida? Pagar o preço em dinheiro/tempo/energia por algo que dura tão pouco no presente, mas nos enriquece as lembranças no futuro?

Essa loja de queijos era maravilhosa por dentro.

Algo que me doeu lá no fundo, de inveja e de querer também, foi a sensação de que as crianças estão seguras, e a infância protegida. Vê-las tão pequenas passeando com a escola e com os seus familiares, dá uma noção que no Brasil só conhecemos das férias. Mas lá, em qualquer horário do dia, você via crianças com pais e mães passeando nas calçadas, tomando um café, brincando no parque.

Na mesma toada, não pude deixar de notar como as pessoas são simplesmente…normais. Não são pessoas feias ou bonitas, são apenas pessoas comuns vivendo com roupas muito normais. Mulheres de cabelos com frizz, testas sem botox e corpos nem gordos, magros ou fortes. Homens idem – e muitos homens empurrando carrinho de bebê em horário “de trabalho”.

Eu em geral me considero uma mulher que se preocupa moderadamente com a aparência, mas certamente estaria muito acima da média no quesito “vaidade” se morasse na Suécia ou Noruega.

Vislumbrei ainda, no nosso simpático bairro residencial em Oslo, como os pais são membros ativos nas comunidades junto dos filhos, assistindo seus campeonatos de futebol, fazendo passeios de bicicleta e viagens de trem e avião com adolescentes meio compridos para as próprias roupinhas. Atividade física nas duas cidades é algo permanente, muita gente faz e são todas as modalidades que você imaginar.

No Vigeland Park, em Oslo, dois meninos fofos imitaram a estátua à frente da qual eu posei.

As soluções de mobilidade, principalmente para idosos, me deixou impactada. As calçadas são planas, perfeitamente preservadas e os velhinhos as percorrem de andador, sozinhos mesmo. Andar de metrô é caríssimo, mas vale cada centavo. É rápido, digno e abundante.

A sensação de dignidade é algo que rapidamente você assimila – existe uma percepção de que a vida humana vale mais lá do que em outros lugares. Veja, não é uma sensação urbana: eu estive em Tóquio por duas vezes e em quesito soluções e planejamento, continua imbatível. Já no quesito humanidade, tirar um tempo de qualidade de vida, a Escandinávia dá um banho em todos os países em que já pisei nesse mundo, inclusive outros europeus.

Não é consumo, não é bens ou serviços, não é planejamento urbano – é algo impalpável mas que possibilita você sentir que vai ficar tudo bem. Talvez seja isso que a social democracia te garanta.

Ainda preciso mencionar que ver os fiordes noruegueses é algo que pode fazer as suas retinas descansarem grandemente. A imensidão das paisagens é impressionante. É um local ermo do mundo, mas muito bem servido de paisagens – e de frio. Não tivemos um dia sequer de calor, e em Oslo venta muito perto do mar. Isso não parece intimidar ninguém, desde que tenha sol, as pessoas saem igual.

Comemos tão bem quanto em qualquer outra capital do mundo: você acessa comidas étnicas, tradicionais, tudo feito com capricho e frescor. Paga-se uma fábula, no entanto. Os doces são incrivelmente apetitosos e abundantes. Geleias de frutas silvestres, bons queijos, salmão defumado em bandejas.

Um pãozinho doce com creme de baunilha e compota de framboesas.

Não bebemos nem um golinho de vinho sequer: a regulação da bebida alcoólica faz com que comprar bebidas seja algo caro e burocrático, o suficiente para não dar vontade de experimentar. Vi pessoas bebendo em bares e restaurantes, lógico, mas eu mesma não consumi. Bebi água da torneira, sobre a qual havia lido que era impecavelmente limpa.

E ainda sobre as águas locais, não posso deixar de mencionar que é muito legal você andar numa linha de metrô que passa “no andar de baixo” de uma ponte, cortando os canais vários em Estocolmo. As soluções existem, estão disponíveis, desde que haja interesse em tornar o mundo um lugar mais decente para a maioria das pessoas.

Em algum ponto entre Suécia e Noruega, aprendendo sobre Hygge.

Aproveitei o acesso ainda para fazer contato com dois conceitos totalmente novos para mim: hygge, uma palavrinha dinamarquesa que não tem tradução literal, lagom, uma palavrinha sueca, e estou estudando freneticamente tudo o que encontrei até o momento.

Ainda foi nessa viagem que me consultei pela primeira vez com uma médica indiana que se mudou para Estocolmo – uma consulta ayurveda!

Eu não sei vocês, mas eu estou considerando essa janela do mundo até agora um sucesso. Ou não?

Um comentário em “O que deu para apreender da Escandinávia

  1. Legal ver a sua experiência na Escandinávia. Concordo com vários apontamentos, a vida normal, mas com suporte da social democracia, sentimento de segurança e felicidade geral da nação, e das crianças brincando livres e felizes nas ruas.

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